Em meio à calamidade que deixou centenas de famílias desabrigadas em Itararé, fala do vereador Tarzan gera indignação

A solidariedade de Itapeva às famílias de Itararé, atingidas por uma das maiores ocorrências climáticas recentes da região, virou alvo de questionamentos durante a 52ª Sessão Ordinária da Câmara Municipal de Itapeva, realizada na última segunda-feira, 31 de agosto.

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A solidariedade de Itapeva às famílias de Itararé, atingidas por uma das maiores ocorrências climáticas recentes da região, virou alvo de questionamentos durante a 52ª Sessão Ordinária da Câmara Municipal de Itapeva, realizada na última segunda-feira, 31 de agosto.

O vereador Tarzan utilizou a tribuna para falar sobre a campanha SOS Itararé, iniciativa que vem mobilizando moradores, empresas, entidades, a região toda e o próprio poder público de Itapeva na arrecadação de materiais e alimentos destinados às famílias atingidas pela forte chuva que castigou o município vizinho no último domingo.

Em sua fala, o parlamentar afirmou que não é contra a solidariedade, mas defendeu que, depois do encerramento da campanha destinada a Itararé, deveria ser criada uma mobilização semelhante voltada exclusivamente para Itapeva.

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Auto Posto Incospel / Ipiranga

“Terminou o SOS Itararé? Vamos fazer o SOS Itapeva.”

Na sequência, Tarzan citou situações de vulnerabilidade existentes em Itapeva, como famílias passando fome, dificuldades para adquirir medicamentos e casas que, segundo ele, enfrentam problemas estruturais há anos.

“Eu não sou contra a solidariedade. Mas não dá, né? Primeiro nós temos que cuidar.”

O vereador também utilizou uma referência bíblica para defender seu posicionamento, afirmando que primeiro é necessário cuidar daqueles que fazem parte da própria comunidade.

“Eu penso o seguinte, que nós estamos aqui em Itapeva. Aqui é a nossa prioridade.”

A fala, entretanto, ocorre justamente em um momento em que Itararé enfrenta uma situação emergencial que ultrapassou os limites do município e ganhou repercussão regional e nacional.

Mais de 700 famílias afetadas

A chuva registrada em Itararé provocou estragos significativos em diferentes pontos da cidade. Houve alagamentos, entrada de água em residências, fortes ventos e uma intensa queda de granizo, que danificou telhados e deixou inúmeras famílias com suas casas expostas à chuva.

Até esta quarta-feira, 2 de setembro, mais de 700 famílias já haviam sido cadastradas pelo município como afetadas pelo temporal.

Diante da dimensão dos danos, a Prefeitura de Itararé decretou situação de emergência e buscou apoio junto ao Governo do Estado e à Defesa Civil. A mobilização envolveu diferentes órgãos e também contou com a solidariedade de pessoas e instituições de outras cidades e até de outros estados.

É justamente nesse contexto que surgiu o SOS Itararé, organizado pelo Itapeva Alerta em parceria com a Prefeitura de Itapeva.

A iniciativa começou logo após o temporal. O objetivo foi simples: arrecadar aquilo que as famílias atingidas mais precisam neste momento, principalmente telhas, alimentos, água, cobertores e colchões.

E a resposta da população foi imediata.

Um caminhão já foi levado para Itararé

Nesta quarta-feira, a primeira grande carga arrecadada foi levada para Itararé. Um caminhão saiu de Itapeva carregado de doações destinadas às famílias afetadas.

Mas a campanha não terminou.

A própria administração municipal de Itararé continua solicitando ajuda porque a necessidade permanece, especialmente de telhas. O granizo registrado durante o temporal foi de grande intensidade e provocou danos em centenas de telhados.

Além das doações da população, empresas de Itapeva também decidiram participar da mobilização.

Casas de materiais de construção estão oferecendo telhas a preços reduzidos ou realizando doações. Empresas também estão contribuindo com água e outros produtos. Pontos de arrecadação foram criados em diferentes locais da cidade.

Ou seja: não se trata apenas de uma ação de um jornal. É uma mobilização coletiva.

Itapeva também já foi ajudada — e também sempre ajudou

O argumento de que a solidariedade destinada a Itararé significaria deixar Itapeva de lado também merece uma reflexão.

O próprio Itapeva Alerta já realizou inúmeras campanhas para ajudar moradores de Itapeva em momentos de dificuldade.

Durante a pandemia, foram promovidas arrecadações de alimentos e cestas básicas. Em situações de enchentes e outros problemas, moradores de bairros como Santa Maria, Miguelzinho e outras localidades também receberam apoio por meio de mobilizações realizadas pelo portal.

Todos os anos, campanhas solidárias também são realizadas durante o período de Natal.

E, quando outras cidades precisam, a mesma rede de solidariedade é acionada.

Recentemente, o Itapeva Alerta participou de mobilizações em diferentes localidades, incluindo Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, o Rio Grande do Sul e o Vale do Ribeira.

Isso porque o portal deixou de ser apenas um veículo voltado exclusivamente para Itapeva. Hoje, sua atuação alcança diferentes municípios da região.

E se fosse Itapeva?

Talvez a principal reflexão provocada por toda essa situação seja justamente esta:

E se fosse Itapeva?

E se a chuva que atingiu Itararé tivesse caído sobre Itapeva?

E se centenas de famílias daqui estivessem com os telhados destruídos pelo granizo, colchões molhados, casas alagadas e sem condições de proteger seus próprios filhos?

Será que a solidariedade de outras cidades deveria ser recusada?

Ou seria justamente nesse momento que esperaríamos que pessoas de outros municípios estendessem a mão para nós?

A solidariedade não precisa escolher um lado.

Ajudar Itararé não significa abandonar Itapeva.

Uma família que doa uma cesta básica para uma família atingida em Itararé não está deixando de amar ou cuidar de Itapeva. Uma empresa que doa uma telha para quem perdeu o telhado não está retirando uma telha de uma família itapevense.

São situações diferentes.

E, em uma calamidade, a emergência tem hora, lugar e necessidade.

A crítica que chama atenção

Tarzan está na vida política há aproximadamente 38 anos. Sua trajetória começou em 1983 e, ao longo desse período, acumulou nove mandatos, sendo um deles com duração de seis anos.

É justamente por isso que sua fala ganha ainda mais peso.

Depois de quase quatro décadas acompanhando a política local, o vereador conhece como poucos as dificuldades enfrentadas pela população e também sabe que situações de emergência exigem mobilização rápida.

Por isso, a declaração feita na tribuna inevitavelmente provoca questionamentos.

Não porque seja errado cobrar melhorias para Itapeva.

Muito pelo contrário.

É legítimo, e necessário, cobrar políticas públicas, moradia digna, medicamentos, alimentação e assistência social para quem vive em situação de vulnerabilidade.

O problema está em colocar essas necessidades em uma espécie de disputa com uma população que, naquele momento, acabou de passar por uma calamidade. Fazer “política” nesse momento é inaceitável.

Itapeva pode e deve discutir seus próprios problemas.

Mas Itararé não deixou de precisar de ajuda porque Itapeva também possui problemas sociais.

Uma necessidade não anula a outra.

SOS Itararé continua

A campanha segue aberta.

As famílias de Itararé ainda precisam de ajuda, principalmente de telhas, alimentos, água, cobertores e colchões. Imagina, olharmos para um município precisando de água e não fazer nada? Pois o abastecimento foi afetado, e não podemos cruzar os braços e deixar as pessoas com tantas necessidades.

O primeiro caminhão já chegou ao município, mas outro está sendo preparado.

E talvez a maior resposta à fala feita na tribuna não esteja em outra fala política.

Está na atitude de quem doa.

De quem separa uma cesta básica.

De quem entrega uma telha.

De quem compra água para doar.

De quem abre as portas da empresa para ser ponto de arrecadação.

De quem olha para uma cidade vizinha em situação de calamidade e entende que, quando o problema é grande demais para uma prefeitura enfrentar sozinha, a solidariedade também precisa ultrapassar os limites do município.

Porque hoje é Itararé.

Amanhã, pode ser Itapeva.

E, quando a necessidade chegar até nós, certamente também vamos esperar que alguém estenda a mão.

Materi: Paulo Ribeiro

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