Serenata de crianças emociona paciente em tratamento de hemodiálise e transforma a luta de Wadi Ibrahim Neto em um símbolo de fé, amor e esperança em Itapeva/SP
Há momentos que nenhuma medicina consegue explicar. Momentos em que o amor se torna remédio, a esperança ganha voz e um simples gesto é capaz de renovar forças para continuar lutando pela vida.
Há momentos que nenhuma medicina consegue explicar. Momentos em que o amor se torna remédio, a esperança ganha voz e um simples gesto é capaz de renovar forças para continuar lutando pela vida.
Foi exatamente isso que aconteceu com Wadi Ibrahim Neto, de 38 anos, casado com Rebeca Blume, que vive um dos períodos mais difíceis de sua história. Internado na Santa Casa, enfrentando o início de um tratamento de hemodiálise, ele recebeu, na última sexta-feira (10/07), uma homenagem que ficará marcada para sempre em sua memória e no coração de todos que presenciaram aquela cena.
Em frente ao hospital, crianças que têm em Wadi um verdadeiro exemplo de carinho, dedicação e amor se reuniram para fazer uma serenata. Com cartazes, cartas e muitos sorrisos, elas demonstraram que o afeto tem um poder imensurável.
Do alto da varanda do hospital, emocionado, Wadi assistiu, cada abraço enviado de longe e cada palavra escrita pelas crianças. Era impossível conter as lágrimas. Não apenas dele, mas também de familiares, profissionais da saúde e de todos que acompanharam aquele momento inesquecível.
Mas para compreender a força dessa homenagem, é preciso conhecer a história que trouxe Wadi até ali.
Tudo começou no dia 6 de junho, há mais de 30 dias atrás, quando ele estava com a família em um sítio. Durante o encontro, começou a passar muito mal por causa de uma crise de hipertensão que não diminuía, mesmo após tomar os medicamentos que utilizava diariamente para controlar a pressão arterial.
Preocupada, a esposa decidiu levá-lo imediatamente à Unidade de Pronto Atendimento (UPA).
Ao chegar à unidade, sua pressão estava ainda mais elevada. Diante da gravidade da situação, ele foi encaminhado para um eletrocardiograma e, logo depois, passou por avaliação médica.
Inicialmente, a suspeita era de um princípio de pneumonia. Por isso, foram solicitados exames completos para confirmar uma possível infecção.
Após receber medicação, sua pressão arterial voltou ao normal. Porém, quando os resultados laboratoriais ficaram prontos, tudo mudou.
Ao analisar os exames, o médico se assustou com as alterações nos índices da função renal e perguntou se Wadi já sabia que possuía algum problema nos rins.
A resposta foi imediata:
— “Não.”
Foi então que veio uma das notícias mais difíceis de sua vida.
O médico explicou que os exames indicavam insuficiência renal e que, muito provavelmente, seria necessário realizar uma hemodiálise de emergência.
O impacto foi tão grande que Wadi passou mal e chegou a sofrer um leve desmaio.
Logo depois, foi solicitada uma vaga via CROSS e ele foi transferido para a Santa Casa, onde começaram uma série de investigações para descobrir o motivo da insuficiência renal.
Durante os exames, veio a explicação para um problema que permaneceu escondido durante praticamente toda a vida.
Quando tinha apenas um mês de idade, Wadi apresentou uma alteração no ureter. O canal que deveria ter se fechado naturalmente permaneceu aberto. Na época, a família buscou atendimento médico e recebeu a informação de que aquela condição era relativamente comum e que, com o crescimento da criança, o problema desapareceria sozinho.
Infelizmente, isso nunca aconteceu.
Ao longo dos anos, essa alteração provocou repetidas infecções urinárias, causando refluxo urinário. Com o tempo, esse refluxo foi deixando cicatrizes nos rins, comprometendo lentamente sua função até evoluir para uma insuficiência renal.
No dia 12 de junho, foi realizada a cirurgia para a criação da fístula arteriovenosa, acesso definitivo utilizado por pacientes em hemodiálise.
Entretanto, antes mesmo que a fístula pudesse amadurecer para ser utilizada, os exames mostraram que os níveis de ureia continuavam aumentando rapidamente.
No dia 20 de junho, tornou-se necessária uma hemodiálise de emergência.
Desde então, a vida de Wadi mudou completamente.
A rotina que conhecia deixou de existir.
Os planos precisaram ser interrompidos.
A liberdade deu lugar aos dias de internação.
Como a fístula ainda não está pronta para uso, ele continua realizando o tratamento por meio de um cateter, enfrentando um processo delicado e desafiador, semelhante ao vivido diariamente por milhares de pacientes renais.
Apesar das dificuldades, foi justamente nesse cenário de dor que surgiu um dos momentos mais bonitos dessa caminhada.
Na sexta-feira (10), as crianças que tanto amam Wadi decidiram fazer algo especial.
Organizaram uma serenata em frente ao hospital.
Levaram cartazes coloridos, cartas escritas com carinho e cantaram, o som ecoou pelos corredores da Santa Casa.
Da varanda, Wadi assistiu tudo emocionado.
Aquele momento parecia renovar suas forças.
Cada sorriso trazia esperança.
Cada abraço, mesmo à distância, lembrava que ele nunca esteve sozinho.
Foi uma demonstração de amor puro, daqueles que não se explicam.
Momentos assim mostram que, muitas vezes, o melhor remédio não está apenas nos medicamentos, mas também na fé, no carinho das pessoas e na certeza de que existe uma rede inteira de amor sustentando quem enfrenta uma batalha tão difícil.
A história de Wadi também representa a realidade de milhares de pacientes que convivem diariamente com a insuficiência renal e dependem da hemodiálise para continuar vivendo.
É uma luta silenciosa, cheia de limitações, mas também repleta de coragem, perseverança e esperança.
Ontem, porém, o hospital deixou de ser apenas um lugar de tratamento.
Transformou-se em palco de uma das mais emocionantes demonstrações de amor que muitos já presenciaram.
Porque existem homenagens que são lembradas por um dia.
E existem aquelas que mudam vidas para sempre.
A de Wadi certamente será uma delas.
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